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REPROGRAMAÇÃO MOTORA

Há alguns anos atrás, a reabilitação se baseava em métodos empíricos, isto é, cujos procedimentos não tinham suporte científico. Bach-y-Rita em 1989 escreveu em um artigo considerando que os métodos de reabilitação, que geralmente levavam o nome de seus criadores (Bobath, Kabath, Petö), apresentavam uma aparência de estudo, sem uma validação realmente científica.
Há fatores históricos que promovem este estado empírico em que permaneceu a neuroreabilitação por todo esse tempo. O conhecimento das possibilidades de reorganização funcional do cérebro para compensar suas lesões só foi recentemente comprovada.

Como funciona o cérebro?

O cérebro humano é composto de um número muito grande de células. Estima-se que somente o córtex contenha cerca de 1.000.000.000.000 neurônios. Esses neurônios se associam em redes ou circuitos que especializam em executar as diversa tarefas que o nosso corpo leva a cabo a cada momento do nosso dia-a-dia: como andar, comer, se movimentar, etc. Alguns circuitos se encubem em controlar nossa atenção, outros o ciclo de vigília-sono e aí por diante.

É através dos circuitos de nosso sistema nervoso central que vivenciamos nossas emoções, juntamente com a liberação de hormônios e do nosso sistema neurovegetativo. As emoções geralmente estão envolvidas no nosso repertório de movimentos.

Processamento Cerebral

Nossos processos vitais e o nosso relacionamento com o meio ambiente através de ações dependem do processamento cerebral que é um processamento hierarquizado e distribuído por todo o sistema nervoso. Circuitos e redes se especializam criando um repertório básico de movimentos para executar determinada tarefa.

A evolução motora do bebê se processa com o desenvolvimento desses circuitos que permitem que a criança aprenda desde a se virar na cama, depois a sentar, ficar em pé e andar. Por outro lado, o paciente neurológico, que perdeu suas habilidades motoras deve reaprender de novo esses movimentos, isto é, deve formar novos circuitos, porém com grandes agravantes que são a sensibilidade e o tônus geralmente anormais.

A precisão dos movimentos requer o controle adequado da seriação dos atos motores que os compõem e que em geral estão distribuídos por diversas articulações. A execução de uma tarefa é feita por uma seqüência de atos motores distribuídos no tempo e no espaço.

Lesão Cerebral

Há várias causas que levam a uma lesão cerebral que pode ocorrer antes do nascimento, durante o nascimento, na infância ou na idade adulta. Nos casos de lesão do cérebro, as deficiências não se manifestam isoladamente; o cérebro lesado pode apresentar alterações em várias das suas funções ao mesmo tempo. A avaliação precisa dos danos nos diversos sistemas comprometidos é o primeiro passo na direção da real assistência ao portador de lesão neuromotora. A expectativa de recuperação depende de muitos fatores incluindo a idade do paciente, área lesada, quantidade de tecido nervoso lesado, qualidade do programa de reabilitação, aspectos ambientais e psicossociais. Um fator decisivo em qualquer circunstância é a demanda imputada ao SNC. Quanto maior a demanda, maior a possibilidade de recuperação em qualquer idade e mesmo em lesões mais graves.

A Reabilitação na Atualidade

A reabilitação na concepção mais moderna ganha característica educacional. Comparativamente à evolução motora do bebê onde ele deve aprender por tentativa e erro desde as funções motoras básicas como virar de bruços na cama, sentar sozinho, ficar em pé com equilíbrio e andar, o paciente neurológico adulto e a criança devem aprender através de treinamento a seqüência de movimentos para executar determinada tarefa. Este é o caminho que tanto a criança normal, a criança e o adulto com lesão neurológica vão obter as habilidades motores que garantirão sua independência.

Esta concepção educacional da reabilitação se torna mais forte com o fato de que nos USA o National Institute of Desability and Rehabilitation Research está anexado ao Departamento de Educação.

Processos de Reabilitação

A reabilitação não pode ser tomada ou injetada, mas deve ter a cooperação ativa do paciente e um ambiente favorável.

O processo de reabilitação se baseia na capacidade de aprender do paciente. O terapeuta é o agente da recuperação que se realiza através de um programa de reabilitação que é desenvolvido a partir de uma avaliação inicial onde são detectadas as disfunções motoras e como elas interferem negativamente no repertório motor do paciente. A reabilitação de uma determinada habilidade vai acontecer quando o paciente puder aprender a executar essa habilidade de forma que ela se torne útil na busca de sua independência.

Aprender não é um processo localizado. Áreas cerebrais se especializam para o processamento sensorial, para o controle da motricidade, para as diferentes memórias e para a avaliação das decisões tomadas. Todo o cérebro está envolvido no processo de aprender. O aprendizado de uma determinada habilidade se realiza através de inúmeras repetições até que a pessoa consiga executar essa tarefa com facilidade.

O tempo que o paciente passa em terapia é muito pequeno em comparação com as horas que não está sob a supervisão do terapeuta e desta forma, para que os procedimentos terapêuticos sejam treinados efetivamente devem ser incorporados às atividades diárias do paciente facilitando o aprendizado mais rápido das funções que se apresentam limitadas.

Em outras palavras:

1- O programa de reabilitação deve vir ao encontro às reais necessidades do paciente sendo ao terapeuta o agente da reabilitação.

2- A cooperação de pessoas interessadas na sua recuperação, levará a resultados mais satisfatórios e em menor espaço de tempo.

3- O ambiente favorável, o alerta e a motivação são fatores decisivos.

4- O controle das seqüências motoras a serem aprendidas devem ser praticadas centenas de vezes para serem armazenadas como um novo programa motor caracterizando assim o aprendizado de uma nova habilidade.

Mecanismos de Reorganização Cerebral

Com a descoberta da possibilidade da recuperação da funções cerebrais perdidas como resultado das lesões, está havendo um grande interesse em elucidar os mecanismos dessa reorganização e desenvolver a partir desses dados, melhores abordagens terapêuticas.

Sabe-se que a reorganização de funções pode ocorrer mesmo com a perda de centenas de gramas de massa cerebral. Os mecanismos potenciais de recuperação comprovados até o momento são:

- crescimento de axônio e dendritos como respostas a demandas funcionais (Bach-y-Rita, 1980) pela formação de novas conexões, buscando a recuperação de funções.

- a possibilidade de reorganização das funções cerebrais pode acontecer até na idade avançada (Coleman, 1979).

- compensação funcional – o paciente pode aprender novas estratégias de movimentos para compesar movimentos perdidos.

Conclusão

- A aplicação dos procedimentos de reabilitação o mais cedo possível e de forma massiva aumenta o grau de recuperação.

- O ambiente terapêutico deve incluir também o ambiente doméstico e social.

- Um membro suporte da família sob orientação do terapeuta deve ser capaz de orientar os procedimentos de reabilitação nas horas remanescentes sem terapia.

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